Fungo gelado pode virar arma natural contra pragas agrícolas

Uma expedição científica que atravessou mares gelados e encarou dias de coleta no fundo do Oceano Austral pode estar abrindo um novo capítulo para a agricultura sustentável. Pesquisadores brasileiros e americanos descobriram, na Antártica, um fungo capaz de produzir substâncias com potencial para se tornarem biopesticidas naturais — alternativas mais seguras e ecológicas aos agroquímicos sintéticos.

O protagonista dessa história é o Penicillium palitans, encontrado a mais de 400 metros de profundidade. Em laboratório, ele revelou dois compostos interessantes: penienona, com forte ação antifúngica e capacidade de impedir a germinação de plantas indesejadas, e palitantina, com efeito fitotóxico mais moderado. A penienona, por exemplo, conseguiu inibir totalmente sementes de grama-bentgrass e combater o fungo Colletotrichum fragariae, responsável por doenças em diversas lavouras.

Mas chegar a esse microrganismo não foi tarefa simples. As expedições ao continente gelado exigem um ano de preparação, viagens de até 10 dias e maratonas de coleta que podem durar 24 horas seguidas. Segundo os cientistas, o esforço vale a pena: os organismos extremófilos da Antártica, adaptados a frio intenso e alta salinidade, escondem um arsenal químico ainda pouco explorado.

O potencial agrícola é enorme, mas transformar a descoberta em produto comercial demanda mais pesquisas. Testes de segurança, estabilidade e eficácia no campo ainda precisam ser realizados, além de estudos para viabilizar a produção em larga escala. “Queremos unir instituições e empresas para avançar nessa frente e oferecer soluções mais verdes para o campo”, afirma o professor Luiz Henrique Rosa, da UFMG.

Financiada pelo CNPq e com apoio do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), a pesquisa reforça que a conservação desses ecossistemas é essencial. Afinal, no gelo antártico, pode estar o futuro de uma agricultura mais limpa e resistente.

Deixe um comentário